Tuesday, May 27, 2025

SEMENTES E PROPRIEDADE INTELECTUAL: O QUE IMPORTA SABER

Sementes de gergelim. Imagem retirada da Yahoo images.

A semente é o ponto de partida de qualquer sistema alimentar. Mas, no mundo actual, ela também pode ser objecto de propriedade intelectual (PI). Com efeito, muitas sementes podem estar protegidas por patentes, certificados ou direitos exclusivos.

Daí que seja importante perceber como a propriedade intelectual se aplica às sementes, quem são os principais afectados e o que isso significa para agricultores, povos e suas comunidades ou países.

🌾 O que é protegido?

A protecção intelectual sobre sementes acontece, principalmente, de duas formas:

1.      Direitos dos Criadores de Variedades Vegetais[1]

  • Aplicam-se a variedades novas, estáveis e distintas de plantas.
  • São muito utilizados por empresas de melhoramento genético e institutos de pesquisa.
  • Garantem ao criador o direito exclusivo de multiplicar e comercializar as sementes por um período determinado (geralmente entre 15 e 25 anos)[2].

2. Patentes sobre sementes geneticamente modificadas

  • Utilizadas em sementes alteradas por biotecnologia (transgênicas).
  • As patentes dão ao titular o controle total sobre o uso da semente, incluindo proibição de replantio por parte do agricultor.
  • Muito comum no sector de grandes culturas como milho, soja e algodão.

🌍 Aspectos a ter em conta

A propriedade intelectual, quando aplicada sem adaptações à realidade local, pode entrar em conflito com os direitos dos agricultores tradicionais, que:

  • Trocam e replantam sementes entre si há gerações;
  • Desenvolvem variedades locais resistentes ao clima e pragas, usando conhecimento empírico;
  • Valorizam a diversidade genética, e não a uniformidade industrial.

Nesse contexto, as regras de PI devem respeitar os direitos consuetudinários e o saber tradicional. É por isso que tratados internacionais, como o Protocolo de Nagoya[3], exigem:

Consentimento prévio das comunidades.

Repartição justa dos benefícios resultantes do uso dos seus recursos genéticos e conhecimento associado.

O risco da biopirataria[4]

Quando empresas ou institutos usam sementes locais ou conhecimento tradicional sem autorização ou compensação, está-se diante da chamada biopirataria, um desafio crescente no continente africano e em outras regiões com alta biodiversidade.

A protecção legal adequada é fundamental para evitar o uso indevido de saberes e garantir que as comunidades sejam reconhecidas e beneficiadas.

Por isso, a propriedade intelectual pode ser uma ferramenta útil para promover a inovação agrícola e a valorização de sementes tradicionais, desde que:

  • Respeite os sistemas agrícolas locais;
  • Reconheça os direitos dos agricultores e comunidades tradicionais;
  • Favoreça a soberania alimentar e o uso livre de sementes por pequenos produtores.

Conclusão

Ainda que não pareça, existe uma conexão muito forte entre a propriedade intelectual e as sementes. Assim, é importante que agricultores, líderes comunitários e empreendedores da agricultura sustentável entendam que essa relação é essencial para proteger os seus direitos e valorizar os seus conhecimentos.



[1] Moçambique é membro do Protocolo de Arusha para a Proteção de Novas Variedades de Plantas, adoptado pela ARIPO em Julho de 2015. O protocolo tem como objectivo conceder e proteger os direitos dos criadores e é aplicado a todos os géneros e espécies de plantas.

Em termos nacionais, temos o Decreto nº 12/2013, de 10 de Abril, que aprova o Regulamento de Sementes; O Decreto n.º 26/2014, de 28 de Maio, que aprova o Regulamento de Protecção de Novas Variedades de Plantas.

 [2] O Protocolo de Arusha garante a protecção por vinte anos.

[3] Protocolo de Nagoya sobre Acesso e Repartição de Benefícios, é um acordo suplementar de 2010 à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) de 1992. Foi adoptado em 29 de outubro de 2010 em Nagoya, Japão, e entrou em vigor em 12 de outubro de 2014.O seu principal objectivo é a concretização de um dos três objectivos da CDB, nomeadamente a repartição justa e equitativa dos benefícios decorrentes da utilização dos recursos genéticos, contribuindo assim para a conservação e o uso sustentável da biodiversidade. A nível interno, Moçambique ratificou o Protocolo através da Resolução nº 2/2014, de 3 de Junho.

Outrossim, pela Resolução 2/94, de 24 de Agosto, Moçambique ratificou a Convenção das Nações Unidas Sobre a Diversidade Biológica. Esta convenção tem como objetivo “a conservação da diversidade biológica, a utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e equitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos, mediante, inclusive, o acesso adequado aos recursos genéticos e a transferência adequada de tecnologias pertinentes, levando em conta todos os direitos sobre tais recursos e tecnologias, e mediante financiamento adequado”.

 [4] “Biopirataria é o nome dado à exploração e utilização de recursos naturais ou conhecimento tradicional a respeito desses recursos de forma ilegal. O tráfico de animais, a extração de princípios ativos e a utilização do conhecimento da população indígena sem autorização são exemplos de biopirataria”. In Mundo Educação, disponível em https://mundoeducacao.uol.com.br/biologia/biopirataria.htm.


Monday, May 26, 2025

🛡️ COMO A PROPRIEDADE INTELECTUAL FORTALECE NEGÓCIOS INDÍGENAS E COMUNITÁRIOS

A propriedade intelectual (PI) desempenha um papel crucial para ajudar empreendedores a construir negócios mais sólidos, protegidos e competitivos. Seja você dono de uma empresa pequena, média ou grande, é importante saber que não existe uma única forma de aplicar a PI — especialmente quando falamos de negócios enraizados em tradição, cultura e saberes locais.

Empresas lideradas por povos indígenas e comunidades tradicionais, por exemplo, muitas vezes enfrentam desafios e preocupações específicas ao navegar por esse sistema. Mas também contam com ferramentas valiosas que podem ser adaptadas à sua realidade e ajudar a preservar a sua identidade cultural enquanto agregam valor ao seu negócio.

A seguir, veja 8 formas práticas de usar a propriedade intelectual para proteger, valorizar e promover produtos e serviços baseados na tradição:


1. Proteja expressões culturais contemporâneas com direitos de autor

Obras literárias, músicas, danças, histórias e outras expressões criativas podem — e devem — ser registadas. Isso garante que sua autoria seja reconhecida e legalmente protegida.


2. Registe o design industrial de seus produtos

A aparência e o estilo dos seus produtos artesanais ou industriais também têm valor. O design industrial protege esses elementos visuais e evita cópias.


3. Transforme palavras, nomes e símbolos em marcas registadas

Nomes indígenas, expressões linguísticas ou símbolos únicos podem ser registados como marca, garantindo exclusividade no uso comercial e reforçando a identidade cultural do seu negócio.


4. Use marcas colectivas e de certificação

Marcas colectivas identificam produtos feitos por membros de um grupo ou associação. Já as marcas de certificação comprovam que os produtos seguem certos padrões culturais ou geográficos.


5. Vincule os seus produtos a um local com Indicação Geográfica (IG)

Se os seus produtos estão fortemente ligados a um território — como ocorre com muitas comunidades indígenas —, a indicação geográfica é uma forma de valorizar essa origem e proteger o uso do nome do local.


6. Proteja inovações baseadas em conhecimento tradicional

Muitos saberes transmitidos oralmente contêm soluções inovadoras em áreas como agricultura, medicina natural e culinária. Existem caminhos para reconhecer e proteger legalmente essas inovações.


7. Use o segredo comercial para manter práticas confidenciais

Você não precisa divulgar tudo para estar protegido. Técnicas, fórmulas e processos podem ser guardados por meio de contratos e segredos comerciais.


8. Aja contra cópias e apropriação indevida

As leis de concorrência desleal também ajudam a impedir que terceiros se beneficiem indevidamente de criações e produtos inspirados na tradição local.


🌱 Empreender com raízes e protecção

A propriedade intelectual não serve apenas para grandes empresas ou inovações tecnológicas. Ela também está ao alcance de comunidades que empreendem com base na cultura, na tradição e no território. Ao proteger os seus conhecimentos e produtos, você fortalece não apenas o seu negócio, mas também sua identidade e sua comunidade.


💼 Precisa de ajuda para proteger sua marca, logotipo ou saber tradicional?

Nós oferecemos serviços especializados em registo e gestão de propriedade intelectual. Actuamos com marcas, logotipos, patentes, design industrial e muito mais — com atendimento voltado à realidade de negócios criativos, locais e sustentáveis.

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Sunday, May 25, 2025

25 DE MAIO - DIA DE ÁFRICA

O dia 25 de Maio é considerado o Dia de África porque foi neste dia, em 1963, que foi criada a Organização da Unidade Africana (OUA), na Etiópia. África é o único continente com duas organizações regionais de propriedade intelectual, a Organização Regional Africana da Propriedade Intelectual (ARIPO), com sede em Harare, Zimbabwe, e a Organização Africana da Propriedade Intelectual (OAPI), com sede em Yaoundé, Camarões.




        


COMO EVITAR ERROS NO REGISTO DE MARCAS EM MOÇAMBIQUE: CONSCIENCIALIZAÇÃO E BOAS PRÁTICAS

O processo de registo de marcas em Moçambique exige mais do que criatividade: exige atenção aos requisitos legais e ao contexto do mercado. Um simples erro pode resultar em recusa do pedido ou até na necessidade de renunciar à marca, com prejuízos financeiros significativos.

Na edição nº 45 do Boletim da Propriedade Industrial, um caso chamou a atenção: uma única empresa nacional apresentou 95 pedidos de renúncia de marca, o que representa um desperdício de cerca de 192.375,00 MT[1].


Por Que Marcas São Recusadas ou Renunciadas?

O Código da Propriedade Industrial de Moçambique (CPI), em seu artigo 122, estabelece que marcas semelhantes ou imitadas de outras já registadas podem ser recusadas.

As causas mais comuns para renúncia ou recusa são:

  • Imitação deliberada (má fé) – Algumas entidades tentam registar marcas muito semelhantes a outras para enganar consumidores e obter vantagens indevidas.
  • Desconhecimento da lei – A maioria dos casos, no entanto, resulta da falta de informação sobre os requisitos legais para o registo de marcas.

Requisitos Legais para o Registo de Marcas em Moçambique

De acordo com o artigo 121 do CPIM, há critérios claros que devem ser respeitados:

1.      Distinção

A marca deve ser única e claramente diferente de outras já registadas. Os consumidores precisam reconhecer a marca e associá-la correctamente ao produto ou serviço.

2.      Originalidade

Não pode haver imitação de marcas existentes, mesmo que parcial. Usar sinais visuais, nomes ou logotipos semelhantes pode levar à recusa do registo.

3.      Semelhança

A marca não pode ser semelhante a marcas notoriamente conhecidas e de prestígio, tanto em Moçambique como internacionalmente (artigos 136 e 137 do CPI).


Exemplo Real: O Que Não Fazer

Imagine alguém visita os EUA, gosta do nome "Domino’s Pizza", e decide abrir um restaurante com esse nome em Maputo. Por mais inspirador que pareça, o nome será recusado automaticamente pelo IPI por semelhança com marca mundialmente conhecida.

É muito mais estratégico criar um nome novo, distinto e com potencial legal de protecção.


A Importância da Consciencialização

A maioria desses erros pode ser evitada com formação adequada e acesso à informação. Empresários, empreendedores e profissionais devem:

  • Conhecer os critérios legais para registo de marca.
  • Fazer pesquisas de anterioridade antes de submeter o pedido de registo.
  • Consultar um agente de propriedade industrial certificado.
  • Participar em workshops, seminários e palestras promovidos pelo IPI.

Onde Obter Informação Fiável?

  • Instituto da Propriedade Industrial (IPI): https://www.ipi.gov.mz/
  • Boletim da Propriedade Industrial – Publicado mensalmente com informações sobre registos, decisões e alterações legais..

Conclusão: Marcas Fortes Começam com Informação

O registo de marcas em Moçambique é mais do que um processo burocrático — é uma ferramenta estratégica de protecção e valorização do negócio. Evitar imitações, semelhanças e erros técnicos pode salvar recursos preciosos e garantir exclusividade no mercado.


💡 Vai registar a sua marca? Consulte um um profissional antes de investir.

🔐 Lembre-se: proteger a sua marca é proteger o seu futuro.

 



[1] Isso em 2010. Com as taxas actuais, o valor seria 432 843,75MT.


Friday, May 23, 2025

COMO GARANTIR A PROTECÇÃO LEGAL DOS SEUS DIREITOS DE PROPRIEDADE INTELECTUAL

Muitos empreendedores, criadores e empresas ainda operam sem ter os seus direitos de propriedade intelectual devidamente registaados. Isso inclui marcas, logotipos, desenhos, invenções e obras artísticas.

Por que registar os seus direitos é fundamental?

O registo garante exclusividade no uso e permite agir legalmente contra terceiros que tentem usar, copiar ou se apropriar indevidamente de seus activos criativos. Ignorar esse passo, seja por falta de informação ou restrições financeiras, pode resultar em perdas irreparáveis.

Monitore o uso da sua marca e outros direitos

É essencial acompanhar o uso da sua marca por terceiros no mercado físico e digital, como redes sociais e e-commerces. Verifique regularmente os boletins de propriedade industrial publicados pelo Instituto da Propriedade Industrial (IPI) para evitar registos indevidos por parte de concorrentes.

Mantenha os seus dados atualizados

Se sua empresa mudou de nome, marca ou endereço, é recomendável actualizar essas informações junto ao IPI. Isso evita perda de prazos, correspondências importantes e até a anulação do direito.

Cumpra os prazos de renovação

Fique atento aos prazos legais para renovação dos registos. Perder esses prazos pode significar a caducidade dos seus direitos, deixando-os vulneráveis a concorrentes ou terceiros interessados.

Conte com apoio profissional

Se precisar de orientação para registar, gerir ou fazer a manutenção dos seus direitos de propriedade intelectual, entre em contacto connosco: info@baipa.co.mz. Estamos prontos para o ajudar. 

POR QUE O REGISTO DE MARCA É ESSENCIAL PARA O SUCESSO E CRESCIMENTO DO SEU NEGÓCIO

Registar uma marca vai muito além de uma exigência legal — é uma acção estratégica que protege a identidade da sua empresa e agrega valor real ao seu negócio. Neste artigo, explicamos por que o registo de marca é um passo fundamental para quem deseja crescer de forma segura e sustentável.

1. Protecção Legal: Evite Cópias e Uso Indevido

O principal benefício do registo de marca é a protecção legal. Com a marca registada, você tem o direito exclusivo de uso e pode impedir legalmente que terceiros usem ou imitem seus elementos distintivos.

2. Reforço na Confiança e Reconhecimento da Marca

Uma marca registada transmite credibilidade. Os consumidores tendem a confiar em empresas que demonstram profissionalismo e solidez, o que impacta positivamente nas vendas e na fidelização.

3. Diferenciação e Vantagem Competitiva

O registo de marca impede que concorrentes usem nomes ou logotipos semelhantes, protegendo o seu posicionamento no mercado e os seus investimentos em branding/ marketing.

4. Marca como Activo de Propriedade Intelectual

Uma marca registada é um activo que pode ser licenciado, usado como franquia ou vendido. Possuir sua propriedade intelectual protegida aumenta o valor do seu negócio e atrai investidores.

5. Expansão Internacional com Segurança

Com o Protocolo de Madrid, você pode registar sua marca em mais de 120 países. Essa facilidade é essencial para empresas com visão de expansão global.

Conclusão: Registo de Marca é Estratégia, Não Burocracia

Proteger sua marca é proteger o futuro da sua empresa. O valor estratégico do registo de marca vai muito além da exigência legal — é um passo essencial para consolidar, crescer e escalar seu negócio com segurança.

 Se ainda nao registoua a sua marca, aja agora. Contacte-nos pelo info@baipa.co.mz


Thursday, May 22, 2025

O QUE É FINANCIAMENTO DE PROPRIEDADE INTELECTUAL?

"Direitos de propriedade intelectual podem ser usados para garantir financiamento, seja por meio de penhor ou transferência de direitos sobre fluxos de caixa derivados desses activos. Alternativamente, a propriedade intelectual de uma empresa pode fornecer um indicador do valor da empresa e subsidiar decisões de financiamento. Para algumas empresas, os activos intangíveis representam apenas uma pequena parcela do valor de uma empresa. Para outras, a maior parte do seu valor pode advir da sua propriedade intelectual. Essas empresas devem comunicar o valor de sua propriedade intelectual e de outros activos intangíveis a credores e investidores.

O Financiamento de Propriedade Intelectual está crescendo, mas ainda é incipiente. Experiências realizadas por agentes comerciais e governos para melhorar o acesso ao financiamento com base na propriedade intelectual estão em andamento". Fonte: OMPI


O Critério da Semelhança Fonética no Exame de Marcas: Por que uma Única Letra Não Evita a Recusa pelo IPI

  A 17 de abril de 2026, o Instituto da Propriedade Industrial (IPI) emitiu uma decisão que recusa definitivamente o registo da marca SOLIX ...